Janeiro Branco: Depressão Não Tratada Pode Aumentar O Risco De Demência?

Janeiro Branco: depressão não tratada pode aumentar o risco de demência?

O movimento Janeiro Branco reforça a importância de colocar a saúde mental em pauta logo no início do ano. A campanha, focada na conscientização sobre o cuidado emocional, também abre espaço para discutir como os transtornos psiquiátricos podem se relacionar com a saúde neurológica.

Uma das perguntas mais frequentes na literatura científica recente é se a depressão não tratada pode aumentar o risco de desenvolvimento de demência. Essa relação ainda está sendo explorada, mas os estudos mostram conexões importantes que merecem atenção, especialmente porque a prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais tanto na saúde mental quanto no cuidado cognitivo.

Depressão: um transtorno que afeta o cérebro

A depressão é um transtorno de saúde mental que não se limita à tristeza persistente. Trata-se de uma condição complexa, que envolve alterações neuroquímicas, hormonais e comportamentais. Em quadros prolongados, essas alterações podem afetar de maneira significativa a estrutura e o funcionamento do cérebro.

Diversas pesquisas demonstram que pessoas com depressão crônica apresentam redução do volume do hipocampo, região diretamente ligada à consolidação da memória e ao aprendizado. Além disso, há evidências de alterações na conectividade entre áreas cerebrais, influência da inflamação sistêmica e aumento da atividade do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA), que regula os hormônios do estresse.

Esse conjunto de fatores demonstra que a depressão, quando prolongada e não tratada, não afeta apenas o humor: ela pode contribuir para alterações funcionais que impactam o desempenho cognitivo.

O que dizem os estudos: existe relação entre depressão e demência?

Os pesquisadores têm encontrado evidências consistentes de que a depressão, especialmente quando não é tratada, está associada a um risco maior de demência. Ainda não há consenso definitivo sobre os mecanismos envolvidos, mas diversas teorias ganham força:

  • Inflamação crônica: quadros depressivos prolongados podem elevar marcadores inflamatórios, contribuindo para processos neurodegenerativos.
  • Disfunção do eixo HPA: o desequilíbrio na liberação de cortisol pode afetar o hipocampo e acelerar danos estruturais.
  • Alterações cardiovasculares associadas: depressão aumenta o risco de hipertensão, diabetes e outras condições que impactam o fluxo sanguíneo cerebral.
  • Dano cumulativo ao hipocampo: a perda de volume nessa região é frequentemente observada tanto em depressão grave quanto em doenças neurodegenerativas.
  • Possível sintoma prodrômico: em alguns casos, a depressão pode ser uma manifestação inicial de doenças neurodegenerativas, especialmente quando surge depois dos 60 anos.

Embora a relação causal ainda esteja em estudo, a correlação entre depressão não tratada e maior vulnerabilidade ao declínio cognitivo é considerada uma área prioritária de investigação científica.

Por que a depressão não tratada pode aumentar esse risco?

Quando a depressão não é tratada adequadamente, ela tende a se tornar mais persistente e severa. Com o tempo, o impacto sobre o cérebro pode se intensificar, ampliando fatores que favorecem o declínio cognitivo. A neuroinflamação, por exemplo, tende a aumentar, assim como o desequilíbrio de neurotransmissores essenciais para o funcionamento cerebral saudável.

Além disso, a falta de tratamento pode levar a alterações significativas no comportamento e no estilo de vida, como sedentarismo, má alimentação, distúrbios do sono e isolamento social, todos reconhecidos como fatores de risco para demência. Outro ponto importante é que a depressão crônica pode comprometer funções executivas, atenção e memória, reduzindo a “reserva cognitiva”, um dos principais fatores de proteção contra doenças neurodegenerativas.

Depressão x sintomas cognitivos

Diferenciar depressão de sintomas iniciais de demência pode ser um desafio, especialmente em pessoas idosas. Por isso, é fundamental atenção aos sinais que podem indicar a necessidade de avaliação médica mais detalhada:

  • Dificuldades de memória que realmente comprometem o cotidiano, e não apenas “esquecimentos comuns”.
  • Lentificação cognitiva importante, com dificuldade para iniciar tarefas ou processar informações simples.
  • Perda de interesse e retraimento social, que podem ocorrer tanto na depressão quanto no início de doenças neurodegenerativas.
  • Alterações de comportamento e humor, como irritabilidade intensa, apatia ou preocupação excessiva.
  • Sintomas depressivos de início tardio, principalmente após os 60 anos, que devem sempre ser investigados com cuidado.

O papel dos exames complementares no diagnóstico diferencial

A avaliação clínica e neuropsicológica é fundamental, mas exames complementares ajudam a esclarecer dúvidas quando sintomas depressivos se misturam a alterações cognitivas.

Entre os recursos diagnósticos, destacam-se:

  • Exame do líquor, fundamental para investigar suspeitas de processos neurodegenerativos. Ele permite analisar biomarcadores como proteína tau total, tau fosforilada e Aβ42, que podem indicar doença de Alzheimer.
  • Exclusão de causas inflamatórias ou infecciosas, já que condições envolvendo o sistema nervoso central (como meningoencefalites, esclerose múltipla e outras doenças inflamatórias) podem causar sintomas cognitivos e alterações de humor.
  • Avaliação do perfil inflamatório e de proteínas, que auxilia no entendimento do processo patológico quando há suspeita de demência.
  • Apoio ao diagnóstico diferencial, ajudando a distinguir depressão, transtornos psiquiátricos, condições inflamatórias e doenças neurodegenerativas.

Esses exames fornecem uma base objetiva que complementa a avaliação clínica e orienta decisões mais precisas sobre o tratamento e acompanhamento.

Tratamento precoce: impacto na saúde mental e proteção cognitiva

A depressão é uma condição tratável, e a intervenção precoce é um dos principais fatores de proteção contra impactos de longo prazo no cérebro. Quando o tratamento é iniciado rapidamente, há maior chance de evitar alterações estruturais e funcionais, além de melhorar significativamente a qualidade de vida.

Abordagens como psicoterapia, medicamentos antidepressivos, atividade física regular e rotinas de sono adequadas fazem parte de um conjunto de estratégias eficazes. Além disso, o monitoramento contínuo de sintomas cognitivos, especialmente em pessoas com depressão recorrente ou de início tardio, pode prevenir danos maiores e auxiliar no diagnóstico precoce de possíveis doenças neurodegenerativas.

Conclusão: Janeiro Branco como convite ao cuidado integral

O Janeiro Branco reforça a importância de enxergar a saúde mental como uma dimensão indispensável do bem-estar. A evidência científica mostra que a depressão não tratada pode, sim, estar associada a um risco aumentado de demência, seja como fator de risco, seja como manifestação inicial de um processo neurodegenerativo. Por isso, cuidar da saúde emocional é também uma forma de proteger a saúde cerebral a longo prazo.

Buscar ajuda diante dos primeiros sinais de depressão, acompanhar mudanças cognitivas e realizar avaliações complementares quando necessário são atitudes essenciais para prevenir desfechos mais graves. A mensagem do mês é clara: cuidar da mente é cuidar do cérebro. E os dois merecem atenção contínua e responsável.

Conheça o Neurolife

O Neurolife é um laboratório, com unidades no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia, especializado no diagnóstico de doenças neurológicas, tais como as meningites neoplásicas, meningites infecciosas, doenças autoimunes, hidrocefalias, síndromes de hipertensão intracraniana e doenças neurodegenerativas, através da punção liquórica e análise do líquor.

Clique aqui para entrar em contato e saber mais sobre nossos serviços.

Back To Top