Esclerose Múltipla: Como Saber Se Um Surto Está Chegando?

Esclerose múltipla: como saber se um surto está chegando?

Conviver com a Esclerose múltipla significa lidar com uma condição que pode se manifestar de formas diferentes ao longo do tempo. Em muitos casos, especialmente nas formas remitente-recorrentes, a doença apresenta períodos de estabilidade intercalados com episódios de atividade inflamatória conhecidos como surtos. Para pacientes e familiares, uma das dúvidas mais comuns é: há como perceber quando um surto está se aproximando?

A resposta exige equilíbrio. Nem sempre é possível prever um surto com antecedência, e nem toda piora de sintomas representa nova atividade da doença. Ainda assim, existem sinais clínicos, contextos e mudanças subjetivas que merecem atenção. Saber identificar esses indícios pode acelerar a busca por avaliação médica, favorecer o tratamento precoce e contribuir para melhores desfechos funcionais.

O que é, de fato, um surto?

De forma simplificada, surto é o aparecimento de novos sintomas neurológicos ou a piora objetiva de sintomas prévios, decorrentes de atividade inflamatória no sistema nervoso central, com duração típica superior a 24 horas e ausência de outra causa imediata, como febre ou infecção.

Na prática clínica, costuma-se considerar também se houve um período anterior de estabilidade, se os sintomas persistem de maneira contínua e se há coerência entre o quadro clínico e áreas potencialmente acometidas no encéfalo, medula espinhal ou nervo óptico. Nem todo sintoma novo, porém, corresponde a um surto verdadeiro. Oscilações passageiras relacionadas a calor, exaustão ou estresse são relativamente comuns.

É possível “sentir” que algo está mudando?

Muitos pacientes relatam perceber alterações nos dias ou semanas anteriores a um surto confirmado. Embora isso varie bastante de pessoa para pessoa, há relatos frequentes de que o “corpo está diferente”. Esse tipo de percepção subjetiva não deve ser descartado.

Entre os sinais que podem anteceder ou acompanhar o início de um surto, destacam-se:

  • Fadiga mais intensa e desproporcional;
  • Aumento de formigamentos ou dormências;
  • Piora do equilíbrio;
  • Visão embaçada ou dor ao movimentar os olhos;
  • Sensação de fraqueza em braço ou perna;
  • Rigidez muscular maior que o habitual;
  • Lentidão cognitiva, dificuldade de foco ou memória;
  • Urgência urinária ou alterações miccionais;
  • Sensação de choque elétrico ao flexionar o pescoço (em alguns casos).

É importante lembrar que esses sintomas não confirmam, por si só, atividade inflamatória. Eles funcionam como sinais de alerta para observação e contato com a equipe assistente.

Sintomas clássicos que merecem atenção imediata

Algumas manifestações são particularmente sugestivas de surto e costumam demandar avaliação mais rápida:

Alterações visuais

A neurite óptica é uma apresentação conhecida da doença. Pode surgir como dor ocular ( especialmente ao mover os olhos); perda de nitidez; cores menos vivas e redução parcial da visão.

Déficit motor

Fraqueza em um membro, dificuldade para subir escadas, tropeços frequentes ou sensação de perna “pesada” podem indicar acometimento motor.

Alterações sensitivas

Dormência extensa, queimação, choque ou perda de sensibilidade nova também merecem investigação.

Sintomas medulares

Quando a medula espinhal está envolvida, podem aparecer desequilíbrio; rigidez; alteração urinária; dificuldade para caminhar e sensação de faixa apertando tronco ou abdome.

Quando não é surto: o pseudo-surto

Esse é um ponto fundamental para pacientes, familiares e profissionais generalistas. Pessoas com esclerose múltipla podem apresentar piora temporária de sintomas antigos sem nova inflamação. Isso é conhecido como pseudo-surto.

Nessas situações, o que costuma ocorrer é a reativação transitória de sintomas já existentes diante de fatores externos, como febre, infecção urinária, gripe, calor intenso, desidratação, noites mal dormidas ou estresse físico importante. Quando o fator desencadeante é resolvido, a tendência é que os sintomas retornem ao patamar anterior.
Diferenciar pseudo-surto de recaída verdadeira evita tratamentos desnecessários e direciona melhor a investigação clínica.

Fatores associados ao risco de surtos

Embora surtos possam ocorrer mesmo em pacientes bem acompanhados, alguns contextos aumentam a chance de reativação da doença:

  • Interrupção ou baixa adesão ao tratamento modificador da doença;
  • Tabagismo;
  • Infecções intercorrentes;
  • Estresse crônico;
  • Sono insuficiente;
  • Puerpério, especialmente nos primeiros meses após parto em alguns casos;
  • Controle inadequado da atividade inflamatória em exames prévios.

Do ponto de vista médico, marcadores radiológicos de atividade em Ressonância magnética, como novas lesões em T2 ou realce por gadolínio, também sugerem maior risco de recaída clínica futura.

O que o paciente deve observar no dia a dia?

Uma estratégia útil é conhecer o próprio padrão clínico. Pacientes que apresentaram surtos anteriores costumam reconhecer mudanças com mais rapidez.

Vale observar especialmente sintomas que surgem de forma progressiva ao longo de horas ou dias, déficits realmente novos (e não apenas desconfortos vagos), persistência por mais de 24 horas e impacto funcional em tarefas como caminhar, escrever, enxergar ou trabalhar. Registrar essas informações em um diário simples pode ajudar muito durante a consulta.

O papel do líquor no diagnóstico e no acompanhamento

O exame do líquido cefalorraquidiano, ou líquor, pode ter grande importância no manejo da esclerose múltipla. Ele não é obrigatório em todos os pacientes, mas frequentemente auxilia no diagnóstico inicial, especialmente quando o quadro clínico ou exames de imagem não são totalmente conclusivos.

A análise do líquor pode identificar sinais de atividade imunológica no sistema nervoso central, demonstrando a produção Intratecal de anticorpos através da pesquisa de bandas oligoclonais IgG, cadeias leves livres kappa e índice elevado de IgG, achados que reforçam a hipótese diagnóstica em muitos casos. Além disso, o exame ajuda a excluir outras doenças inflamatórias, infecciosas ou autoimunes que podem simular esclerose múltipla.

Durante um surto típico, o líquor nem sempre é necessário para confirmar a recaída, já que a decisão costuma ser baseada principalmente na avaliação clínica e em exames de imagem. No entanto, ele pode ser extremamente útil quando os sintomas são atípicos, quando há dúvida diagnóstica, quando a resposta ao tratamento não é a esperada ou quando existe suspeita de infecção do sistema nervoso central antes do uso de imunossupressores ou corticosteroides.

Em outras palavras, o líquor costuma ter papel mais relevante nos casos complexos do que nos surtos clássicos e evidentes.

Como são tratados os surtos?

Nem todo surto exige o mesmo manejo. Quadros leves podem ser acompanhados clinicamente, especialmente quando o prejuízo funcional é pequeno. Casos moderados ou graves frequentemente recebem pulsoterapia com corticosteroides, como Metilprednisolona, conforme decisão médica.

Em situações refratárias, podem ser consideradas terapias de resgate, como plasmaférese. Paralelamente, discute-se se o tratamento de base precisa ser ajustado, especialmente quando há recorrência de atividade inflamatória.

Dá para prevenir?

Não existe prevenção absoluta, mas reduzir riscos é possível. A adesão correta ao tratamento, consultas regulares, vacinação conforme orientação médica, sono adequado, atividade física individualizada e abandono do tabagismo estão entre as medidas mais importantes.

A medicina atual trabalha cada vez mais com a meta de minimizar surtos, progressão clínica e surgimento de novas lesões em exames.

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